18 junho 2008

Paixão


Se é paixão, me nego.
Já resvalei, a alma em pêlo,
nesse áspero despenhadeiro.

Se é paixão, não quero.
Conheço seus espinhos de mel,
sei aonde me conduz
embora prometa os céus.

Se é paixão, desculpe-me, não posso.
Conheço suas insônias
e a obsessão.

Se é paixão me vou, não devo ...
não adianta teus apelos.
Resistirei, porque aí
morri mil vezes.
Paixão é arma de três gumes,
e ao seu corte estou imune.

Se é paixão, me nego
e não receio que me acuses de medo.
Do desvario conheço todos os segredos.

Se é paixão, recuso-me e sinto muito,
pois foi há custo
que saí do labirinto.

( Affonso Romano Sant'Anna )

13 junho 2008

Para minha irmã


A força da nossa amizade vence todas as diferenças.
Aliás, para que diferenças se somos amigas?
Quando erramos nos perdoamos e esquecemos.
Se temos defeitos,não nos importamos.
Trocamos segredos e respeitamos as divergências.
Nas horas incertas, sempre chegamos no momento certo.
Nos amparamos e nos defendemos sem pedir.
Fazemos porque nos sentimos felizes em fazer.
Nos reverenciamos, adoramos, idolatramos, apreciamos e admiramos.
Nos mostramos amigas de verdade,
quando dizemos o que temos a dizer.
Nos aceitamos , sem querer mudanças.
Estamos sempre presente,não só nos momentos de alegria
compartilhando prazeres,mas principalmente nos momentos mais difíceis.

10 junho 2008

Afinidade


A afinidade não é o mais brilhante, mas o mais sutil,
delicado e penetrante dos sentimentos.
É o mais independente.

Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos,
as distâncias, as impossibilidades.
Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma a relação,
o diálogo, a conversa, o afeto no exato ponto
em que foi interrompido.

Afinidade é não haver tempo mediando a vida.
É uma vitória do adivinhado sobre o real.
Do subjetivo para o objetivo.
Do permanente sobre o passageiro.
Do básico sobre o superficial.

Ter afinidade é muito raro.
Mas quando existe não precisa de códigos verbais
para se manifestar.
Existia antes do conhecimento,
irradia durante e permanece depois
que as pessoas deixaram de estar juntas.
O que você tem dificuldade de expressar a um não afim,
sai simples e claro diante de alguém
com quem você tem afinidade.

Afinidade é ficar longe pensando parecido
a respeito dos mesmos fatos que impressionam,
comovem ou mobilizam.
É ficar conversando sem trocar palavras.
É receber o que vem do outro
com aceitação anterior ao entendimento.

Afinidade é sentir com. Nem sentir contra,
nem sentir para, nem sentir por, nem sentir pelo.
Quanta gente ama loucamente,
mas sente contra o ser amado.
Quantos amam e sentem para o ser amado,
não para eles próprios.

Sentir com é não ter necessidade de explicar
o que está sentindo.
É olhar e perceber.
É mais calar do que falar, ou,
quando é falar, jamais explicar:
apenas afirmar.

Afinidade é jamais sentir por.
Quem sente por, confunde afinidade com masoquismo.
Mas quem sente com, avalia sem se contaminar.
Compreende sem ocupar o lugar do outro.
Aceita para poder questionar.
Quem não tem afinidade,
questiona por não aceitar.

Afinidade é ter perdas semelhantes e iguais esperanças.
É conversar no silêncio, tanto nas possibilidades exercidas
quanto das impossibilidade vividas.

Afinidade é retomar a relação no ponto em que parou
sem lamentar o tempo de separação.
Porque tempo e separação nunca existiram.
Foram apenas oportunidades dadas (tiradas) pela vida,
para que a maturação comum pudesse se dar.
E para que cada pessoa pudesse e possa ser,
cada vez mais a expressão do outro sob a forma ampliada
do eu individual aprimorado.

(Artur da Távola)

06 junho 2008

Rifa-se um coração


Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade
está um pouco usado, meio calejado, muito machucado
e que teima em alimentar sonhos, e cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente
que nunca desiste de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado,
coração que acha que Tim Maia estava certo
quando escreveu... "não quero dinheiro,
eu quero amor sincero, é isso que eu espero...".
Um idealista...
Um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece,
e mantém sempre viva a esperança de ser feliz,
sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando relações
e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste
em cometer sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições
arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado. Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional que,
abre sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas,
mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado
indicado apenas para quem quer viver intensamente e,
contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida
matando o tempo, defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente
que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater
ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro
na hora da prestação de contas:
" O Senhor poder conferir", eu fiz tudo certo,
só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal
quando ouvi este louco coração de criança
que insiste em não endurecer e, se recusa a envelhecer".
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro
que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,
mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que,
ainda não foi adotado, provavelmente,
por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais,
por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que,
mesmo estando fora do mercado,
faz questão de não se modernizar, mas vez por outra,
constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence seu usuário
a publicar seus segredos e, a ter a petulância
de se aventurar como poeta.

Clarisse Lispector

04 junho 2008

Qual é...


Qual é...

O dia mais belo?
-Hoje...
A coisa mais fácil?
-Equivocar-se...
O maior obstáculo?
-Medo...
O maior erro?
-Abandonar-se...
A raiz de todos os males?
-Egoísmo...
A distração mais bela?
´-Trabalho...
A pior derrota?
-Desalento...
Os maiores professores?
-Crianças...
A primeira necessidade?
-Comunicar-se...
O maior mistério?
-A morte...
A coisa mais feliz de se fazer?
-Ser útil aos demais...
O pior defeito?
-O mau humor...
A pessoa mais perigosa?
-A mentirosa...
O pior sentimento?
-O rancor...
O presente mais belo?
-O perdão...
O mais imprescindível?
-Orar...
O caminho mais rápido?
-O correto...
A sensação mais grata?
-A paz interior...
A expressão mais eficaz?
-O sorriso...
O melhor remédio?
-O otimismo...
A maior satisfação?
-O dever cumprido...
A força mais potente do universo?
-A fé...
As pessoas mais necessárias?
-Os pais...
A coisa mais bela de todas?
-O amor...

( Madre Teresa de Calcutá )

Demasiada Emoção


Há entre nós uma demasiada emoção;
tal é o motivo do que tem havido!
Toma um bocado de argila,
molha-a, amolda-a,
e faz uma imagem minha
e uma imagem tua.
Toma-as então,
rompe-as e adiciona-lhes
um pouco de água.
Transforma-as de novo
em uma imagem minha
e uma imagem tua.
E então,
haverá na minha argila
alguma coisa da tua.
E na tua argila
alguma coisa da minha.

( Linyutang )

Gostoso demais


Tô com saudade de tu, meu desejo
Tô com saudade do beijo e do mel
Do teu olhar carinhoso
Do teu abraço gostoso
De passear no teu céu

É tão difícil ficar sem você
O teu amor é gostoso demais
Teu cheiro me dar prazer
Quando estou com você
Estou nos braços da paz

Pensamento viaja
E vai buscar meu bem-querer
Não dá prá ser feliz, assim
Tem dó de mim
O que eu posso fazer.

Composição: Nando Cordel/Dominguinhos